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Poucos medicamentos ganharam tanta notoriedade nos últimos anos quanto as chamadas “canetas emagrecedoras”. Semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Monjauro) passaram do consultório médico para as conversas entre amigos, redes sociais e até mesas de jantar.
E os resultados são realmente bons. Esses medicamentos apresentaram uma mudança importante no tratamento da obesidade e de doenças metabólicas. Mas, no consultório do gastro, surgiu também um novo grupo de pacientes: aqueles que emagreceram, mas começaram a conviver com enjôos, estufamento, refluxo, constipação ou outros sintomas.
Isso não acontece por acaso.
O GLP-1, o medicamento que é a base destas canetas, é um hormônio produzido naturalmente pelo nosso intestino depois que comemos. Entre suas diversas funções, participa do controle da glicose, da saciedade e da movimentação do aparelho digestivo. A semaglutida imita a ação desse hormônio. Já a tirzepatida tem uma ação dupla, atuando nos receptores de GLP-1 e também de GIP.
Um dos efeitos desses medicamentos ocorre justamente no estômago: o alimento demora mais tempo para ser digerido e para passar para o intestino.
É fácil perceber como isso contribui para o emagrecimento. A pessoa come menos e permanece satisfeita por mais tempo. Aquela sensação de fome que aparecia poucas horas depois de uma refeição pode simplesmente desaparecer.
Mas existe o outro lado dessa história.
Quando o estômago demora mais para esvaziar, podem aparecer sensação de estômago cheio, náuseas, arrotos, distensão abdominal e, em algumas pessoas, vômitos. Refluxo e azia também podem surgir ou piorar.
É bastante comum ouvir no consultório: “Doutor, parece que a comida fica parada no meu estômago”.
De certa forma, essa descrição faz sentido.
Os sintomas costumam ser mais importantes no início do tratamento e nos períodos em que a dose está sendo aumentada. Por isso existe um escalonamento progressivo das doses. Não há vantagem em aumentar rapidamente a medicação quando o aparelho digestivo ainda não se adaptou.
Também é preciso reaprender a comer.
Uma refeição que anteriormente era bem tolerada pode se tornar excessiva. Comer rapidamente, ingerir grandes volumes de alimentos ou fazer refeições muito gordurosas pode provocar bastante desconforto. Muitas vezes, refeições menores e mais lentas são melhor toleradas.
O intestino também pode sentir os efeitos. Algumas pessoas apresentam diarreia; outras, justamente o contrário: passam a sofrer com constipação. Dor abdominal e distensão também podem ocorrer.
Na maioria das vezes, esses sintomas são leves ou moderados e melhoram à medida que o organismo se adapta ao tratamento. O que não pode é aceitar sintomas intensos como se fossem uma consequência obrigatória do emagrecimento.
Vomitar repetidamente, não conseguir se alimentar, ficar desidratado ou passar vários dias com constipação importante não significa que “a caneta está funcionando bem”. Significa que alguma coisa precisa ser reavaliada.
E a tão comentada gastroparesia?
Talvez esse seja um dos assuntos que mais geram preocupação.
Gastroparesia é uma condição na qual o estômago apresenta um atraso importante do seu esvaziamento, sem que exista uma obstrução impedindo a passagem dos alimentos.
Como semaglutida e tirzepatida podem retardar o esvaziamento gástrico, é possível que o paciente apresente sintomas semelhantes aos encontrados na gastroparesia. Isso não significa, entretanto, que toda pessoa que sente náusea ou empachamento durante o tratamento tenha desenvolvido a doença.
Existe uma diferença importante entre o efeito esperado de um medicamento sobre a motilidade do estômago e uma gastroparesia propriamente dita.
E a vesícula e o pâncreas?
A vesícula biliar também merece atenção.
Os estudos mostram aumento do risco de cálculos na vesícula com medicamentos dessa classe. Uma grande revisão publicada em 2025, reunindo 55 estudos randomizados e mais de 106 mil participantes, encontrou aumento do risco de colelitíase, a famosa pedra na vesícula, entre os usuários dessas canetas. Parte desse fenômeno parece estar relacionada à perda rápida de peso.
Uma dor forte e persistente principalmente na região superior direita do abdome, eventualmente acompanhada de náuseas, vômitos ou febre, não deve ser simplesmente atribuída à medicação.
A pancreatite é outro tema frequentemente associado às canetas. Ela consta entre as advertências desses medicamentos e merece atenção, embora as melhores evidências disponíveis até o momento não demonstrem um grande aumento consistente desse risco nos estudos randomizados.
Vai fazer um exame de endoscopia, colonoscopia ou cirurgia? Avise que usa a caneta
Existe ainda um aspecto que ganhou muita importância nos últimos anos.
Em alguns pacientes, podemos encontrar alimento dentro do estômago durante uma endoscopia mesmo após o período habitual de jejum. Isso acontece justamente porque esses medicamentos retardam o esvaziamento gástrico.
Quando existe sedação profunda ou anestesia o conteúdo dentro do estômago aumenta o risco de regurgitação e aspiração para os pulmões.
As recomendações mais recentes propõem uma avaliação individual, normalmente recomenda-se que o paciente fique alguns dias sem usar o medicamento. Pacientes que estão aumentando a dose, utilizam doses mais altas, apresentam náuseas, vômitos, estufamento ou constipação importante, ou possuem outras doenças que retardam o esvaziamento do estômago podem necessitar de cuidados adicionais.
Portanto, se você usa semaglutida, tirzepatida ou outro medicamento deste tipo e vai realizar uma endoscopia, cirurgia ou procedimento com sedação, informe antecipadamente o seu médico e o anestesista.
Então essas medicações fazem mal?
Essa talvez seja a pergunta errada.
Semaglutida e tirzepatida representam um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade. São medicamentos eficazes e que podem trazer benefícios importantes quando corretamente indicados.
Mas medicamento eficaz não significa medicamento isento de efeitos adversos.
Como gastroenterologista, acredito que o ponto mais importante seja reconhecer que muitos dos efeitos responsáveis pela perda de peso estão intimamente ligados ao aparelho digestivo. Existe uma linha entre sentir saciedade mais cedo e passar o dia nauseado; entre comer menos e não conseguir comer; entre uma constipação leve e permanecer vários dias sem evacuar.
O objetivo do tratamento da obesidade não é fazer uma pessoa passar mal para que ela coma menos.
O tratamento bem conduzido deve buscar uma dose que seja eficaz, mas também tolerável, associada a alimentação adequada, hidratação, atividade física e acompanhamento médico.
As “canetas emagrecedoras” vieram para ficar e provavelmente ainda veremos muitos avanços nessa área nos próximos anos.
Referências e informações adicionais:
1. Chiang CH, Jaroenlapnopparat A, Cakir Colak S, et al. Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists and Gastrointestinal Adverse Events: A Systematic Review and Meta-Analysis. Gastroenterology. 2025;169(6):1268-1281. DOI: 10.1053/j.gastro.2025.06.003. Disponível no PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40499738/
2. Kindel TL, Wang AY, Wadhwa A, et al. Multisociety Clinical Practice Guidance for the Safe Use of Glucagon-like Peptide-1 Receptor Agonists in the Perioperative Period. Clinical Gastroenterology and Hepatology. Publicado online em 2024; edição impressa 2025. DOI: 10.1016/j.cgh.2024.10.003. Disponível no PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39480373/