Tosse: Quando o Refluxo pode estar por trás do problema?

Everton Berger

Gastroenterologista

Tempo de leitura de 5 minutos.

Uma tosse depois de um resfriado é algo comum. Outra situação bem diferente é aquela tosse que persiste por semanas, interfere no sono, atrapalha reuniões, provoca constrangimento e continua mesmo depois de vários tratamentos.

Em adultos, chamamos de tosse crônica aquela que persiste por mais de oito semanas. E descobrir sua causa nem sempre é simples.

No consultório, uma pergunta aparece com frequência: “Doutor, será que essa tosse é refluxo?”

Pode ser. Mas nem sempre é.

Tosse crônica não é sinônimo de refluxo

Existem diversas causas possíveis para uma tosse persistente. Asma, alterações das vias aéreas superiores, bronquite, tabagismo e alguns medicamentos — especialmente alguns usados para o tratamento da pressão alta — estão entre as possibilidades que precisam ser consideradas.

Dependendo da história do paciente, doenças pulmonares, infecções e outras condições também devem ser investigadas.

Por isso, atribuir automaticamente uma tosse prolongada ao refluxo pode levar a meses de tratamento sem resolver o problema.

Por isso é sempre importante descartar as causas pulmonares e otorrinolaringológicas antes de botar a culpa no refluxo.

Na prática, a investigação da tosse crônica muitas vezes exige uma abordagem conjunta entre o gastroenterologista, pneumologista e otorrinolaringologista.

Mas como o refluxo poderia provocar tosse?

Quando pensamos em refluxo, normalmente lembramos de azia e daquela sensação de líquido ou alimento retornando até a boca.

Mas a relação entre refluxo e tosse é mais complexa.

O conteúdo do estômago pode retornar ao esôfago e desencadear mecanismos capazes de estimular a tosse. Em alguns pacientes existe uma relação temporal clara entre episódios de refluxo e crises de tosse.

O problema é que nem todo refluxo é fortemente ácido.

E é justamente aqui que começa uma das limitações de simplesmente prescrever um medicamento para diminuir a acidez e esperar para ver o que acontece.

Os inibidores da bomba de prótons, como omeprazol e medicamentos semelhantes, reduzem a produção de ácido, mas não necessariamente impedem que o conteúdo do estômago retorne para o esôfago.

Além disso, estudos sobre tosse crônica relacionada ao refluxo mostram que o tratamento apenas com esses medicamentos não resolve de maneira consistente a tosse quando utilizado indiscriminadamente.

Por isso, “melhorou com omeprazol” ou “não melhorou com omeprazol” não são, formas confiáveis de confirmar ou excluir que o refluxo esteja participando do problema.

É aí que entra a pH-impedanciometria

A pH-impedanciometria esofágica de 24 horas é um exame que permite observar o que acontece no esôfago durante um dia praticamente normal do paciente.

Uma pequena sonda é posicionada pelo nariz até o esôfago e permanece conectada a um aparelho portátil. Durante o período de monitorização, o paciente realiza suas atividades habituais, faz suas refeições, dorme e registra os sintomas.

O exame combina duas informações.

A medição do pH identifica quanto tempo o esôfago fica exposto ao ácido.

Já a impedância consegue perceber a movimentação de líquido e gás dentro do esôfago.

Essa combinação tem uma vantagem importante: permite detectar não apenas episódios de refluxo ácido, mas também episódios fracamente ácidos ou não ácidos.

Para determinados pacientes com tosse, essa informação pode fazer diferença.

O exame pode mostrar se a tosse acontece perto de um episódio de refluxo

Outro recurso interessante da pH-impedanciometria é comparar o momento em que ocorrem os episódios de refluxo com o momento em que aparecem os sintomas registrados pelo paciente.

Isso permite avaliar se existe uma associação temporal entre refluxo e tosse.

Imagine, por exemplo, um paciente que apresenta dezenas de episódios de tosse durante o dia. Se uma proporção relevante deles acontece em proximidade temporal com episódios documentados de refluxo, essa informação ajuda a compreender melhor o quadro clínico.

Mas existe uma ressalva importante.

Encontrar uma associação não significa automaticamente provar que o refluxo é a única causa da tosse.

A interpretação deve considerar todo o contexto clínico e os demais parâmetros do exame.

E a endoscopia? Ela consegue dizer se a tosse é causada pelo refluxo?

Essa é outra dúvida frequente.

A endoscopia digestiva alta é extremamente útil na gastroenterologia. Pode identificar esofagite, alterações anatômicas e outras doenças do esôfago e do estômago.

Mas uma endoscopia normal não exclui refluxo e, principalmente, a endoscopia não consegue estabelecer sozinha que uma tosse seja provocada pelo refluxo.

O mesmo cuidado deve ser adotado com alterações observadas na laringe. Vermelhidão ou sinais de inflamação encontrados em uma laringoscopia podem ter diferentes causas e não são suficientes, isoladamente, para diagnosticar refluxo como responsável pelos sintomas. Estudos utilizando critérios objetivos demonstram a limitada especificidade desses achados para confirmar doença do refluxo.

Então, quem pode se beneficiar da pH-impedanciometria?

O exame é particularmente útil quando existe tosse crônica sem uma explicação clara e há suspeita de participação do refluxo, principalmente quando é necessário obter uma resposta objetiva antes de manter tratamentos por longos períodos ou considerar uma intervenção antirrefluxo.

A forma como o exame será realizado depende da pergunta que queremos responder.

Quando a doença do refluxo ainda não foi comprovada, a monitorização costuma ser realizada sem medicamentos que bloqueiam a produção de ácido para determinar se existe refluxo patológico.

Já nos pacientes que possuem refluxo objetivamente comprovado, mas continuam apresentando sintomas apesar do tratamento adequado, a pH-impedanciometria pode ser realizada durante o uso da medicação para verificar se ainda ocorrem episódios de refluxo e se eles se relacionam aos sintomas.

Essa diferença é importante. O exame não deve ser solicitado simplesmente como “uma pHmetria”. Ele precisa responder a uma pergunta clínica.

O mais importante é não procurar uma resposta fácil para um problema complexo

A tosse crônica é um bom exemplo de como diferentes órgãos podem participar do mesmo sintoma.

Às vezes a origem está predominantemente nos pulmões. Em outros pacientes, nas vias aéreas superiores. Há casos nos quais o refluxo realmente desempenha papel importante e outros em que vários fatores coexistem.

Por isso, tratar toda tosse persistente como refluxo pode ser tão inadequado quanto ignorar completamente essa possibilidade.

Quando existe dúvida, a pH-impedanciometria permite trocar uma suposição por informação objetiva.

E esse talvez seja seu maior valor: não apenas demonstrar quando o refluxo pode estar participando da tosse, mas também ajudar a mostrar quando devemos procurar outra causa.


Referências

  1. Katz PO, Dunbar KB, Schnoll-Sussman FH, Greer KB, Yadlapati R, Spechler SJ. ACG Clinical Guideline for the Diagnosis and Management of Gastroesophageal Reflux Disease. American Journal of Gastroenterology. 2022;117(1):27-56.
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    PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34807007/
  2. Chen JW, Vela MF, Peterson KA, Carlson DA. AGA Clinical Practice Update on the Diagnosis and Management of Extraesophageal Gastroesophageal Reflux Disease: Expert Review. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2023.
    PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37061897/
  3. Kahrilas PJ, Altman KW, Chang AB, et al. Chronic Cough Due to Gastroesophageal Reflux in Adults: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest. 2016;150(6):1341-1360.
    DOI: 10.1016/j.chest.2016.08.1458
    PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27614002/

Autor

Dr. Everton Berger
Gastroenterologista
CRM 13989 | RQE 11578

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